sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Auto-Ajuda

Carta a um Jovem Ator (na íntegra)

Foi grande a minha emoção no nosso primeiro encontro.

Eu vi a avidez com que vocês queriam saber da vida para então inserir o teatro dentro dela. E nesse dia de aniversário, eu gostaria de transmitir a vocês um resumo de aniversariante, a respeito do que andei aprendendo nesses últimos 72 anos. Para depois receber perguntas a respeito. Da minha vida ou obra ou o que quiserem. Não se trata de um homem mais velho falando para os jovens. Penso que todos temos a mesma idade, que é irrelevante, não há diferença de 50 ou 60 anos quando a aventura humana tem por tempo o tempo todo, a eternidade.

Melhor que comecemos do início.

Nascemos sem termos sido consultados. Entramos na vida berrando porque provavelmente dói a primeira vez que o ar entra nos pulmões. Dizem que o segundo terço da vida é o melhor e isso está certo. Parabéns, vocês ainda têm pela frente o melhor pedaço da vida. Realmente a infância e adolescência, por mais maravilhosas que sejam, estão sempre plenas de dúvidas, inseguranças, tentativas de descobrir o próprio lugar no mundo. E a terceira parte, a velhice, vem sempre acompanhada pela decadência física, até o Rolls-Royces envelhecem.

A infância é um momento máximo de descobertas. A vida nos oferece o mundo para conhecer e a fonte do prazer é a fonte do conhecimento. São novidades a cada segundo, agradáveis e desagradáveis. Olhe uma criança com atenção, é fantástico! Sua atenção e sua sabedoria. Aí vem o grande impacto do sexo, chamado adolescência. Quando eu era adolescente achava que todo mundo era igual. Um dos meus primeiros sofrimentos sérios foi constatar que as pessoas são muito diferentes. Você pode amar alguém que detesta as coisas que você ama e vice-versa. Isso me foi muito doloroso. Outra dor eu tive quando descobri que não poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo. E a terceira, quando constatei que eu e todos os meus e todos os que não eram meus teríamos o mesmo destino, morrer. Quando compreendi isso, chorei anos. Não por minha causa mas por pena da humanidade. Numa das minhas primeiras peças, alguém está chorando pelo mundo e quando pedem que ele pare, ele se recusa e exige o contrário, que todos chorem juntos. Que essa é a única atitude digna. Enfim, eu me embatia contra aquilo que se costuma chamar de “condição humana”. Não podemos viver no fundo do mar embora possamos perfeitamente imaginar isso. Nem voar como os pássaros, nem deixar de sofrer, às vezes brutalmente, nem evitar que nossos entes queridos sofram. O sofrimento e a morte fazem parte do pacote que involuntariamente compramos. Os homens nascem e são infelizes. E morrem querendo viver mais. Posto que a natureza colocou neles um imenso desejo de imortalidade.

Claro que tudo isso é misterioso e confuso. E atordoa as mentes jovens. Mas é inexorável. Essas e muitas outras limitações fazem parte de um contrato assinado para poder viver: a condição humana. Duas atitudes podem ser tomadas quanto a isso. Uma é a negação e a outra é a aceitação. A negação leva a um desespero irremediável, a aceitação é uma façanha quase inatingível. Por que esse paradoxo? Não sabemos. Mas lhe damos um nome. É o mistério da vida. Que nos circunda concreto como uma pedra e cuja missão do artista é se aproximar, devassar, por vezes até, descobrir algo. Essa deveria ser a função de todo homem. É a vocação humana, o mundo não será feliz enquanto todos os homens não forem artistas. A vocação do homem é criar.

Dizem que o mundo é mau, cheio de injustiças e violências e assim é, sem dúvida. Mas de quem é a culpa? A mim me parece que não é dos homens. Os homens nasceram para amar, observem de novo os bebês. Eles choram quando algo lhes falta. Quando sofrem por algo. Uma famosa experiência feita com ratos... {inserir!}

Assim somos nós, na chapa eletrificada da condição humana. Nosso sofrimento, a dor, é que faz os homens maus. O natural é o amor. E o desamor é a loucura. O homem não é o lobo do homem. A condição humana, a morte, em particular, embora seja um dado estimulante para a criação é algo de insuportável para a consciência.

Mas voltemos a este pequeno e humilde ser humano que somos cada um de nós.
Primeiro, como os ratinhos, botamos a culpa nos pais. Minha filha e eu temos muita paixão um pelo outro, quando ela era adolescente, me escreveu uma carta que começava assim: Papai, eu te odeio! Pule o mais rápido possível essa fase. Seus pais não fazem por mal, eles são tão fodidos quanto vocês e os pais deles. Estão todos sobre a bota esmagadora e na camisa de força da condição humana.

Aí arranjamos as namoradas e toda a culpa é posta no amor. Chora-se, agride-se, espanca-se o ser amado tanto quanto possível. No fundo acusando-o de não nos proteger contra as dores do mundo. Um homem se apaixona e tem a certeza de que a amada pode resolver todos os seus problemas. Estar ao seu lado é a felicidade. Quando essa ilusão se desfaz, pouco tempo depois, os ânimos tornam-se agressivos. Tudo isso é de um ridículo atroz e visto assim, à distância, somos assim mesmo os humanos. De um ridículo atroz. Queremos a perfeição, o paraíso. Um deus redentor. Embora não tenhamos nenhum indício concreto de sua existência.

Continuando a vida. Com uma das namoradas que temos, acabamos por nos casar. O sexo então é algo sublime e traz, quando resolve trazer, os filhos. Não é verdade que se tem uma vida só. O homem renasce e revive, de tão perto que ele olha seus filhos. Depois os filhos vão embora, sempre vão, e você vê com tristeza e medo a velhice que se aproxima. O corpo já não é mais confortável. Espirituais são os jovens que não pensam no corpo. A não ser para terem prazer. Os velhos são ligados ao corpo, sentem dores e incômodos, não têm muito tempo para serem espirituais.
Se vocês quiserem transcender, transcendam agora. E finalmente chega a morte. Às vezes rápida, na maior parte das vezes, dolorosa. Embora muita gente boa acredite que o último momento é sempre de satisfação.

Mas vocês acham que eu vim aqui no meu aniversário para contar uma história tão triste como essa? Estão muito enganados. O homem com seu neo-córtex poderoso, capaz de criar as mais sofisticadas tecnologias, de planejar remédios e armas, é também um lutador, um guerreiro contra a morte, melhor dizendo. O problema é saber de que lado ele luta. Do lado da vida ou do lado da morte. Você aí é Flamengo ou Fluminense? E você deixa de ser Flamengo quando o time perde, torcedor infiel? É preciso decidir radicalmente, no exagero e até à loucura, de que lado você está. Eu pessoalmente estou convencido que é melhor ficar do lado da vida. Explico o porquê.
Amar a vida, incondicionalmente. Como uma mulher por quem a gente se apaixona, um amor incondicional, como dos bons pais pelos filhos. Amar a vida, quer ela te trate bem, quer ela te trate mal. Incondicionalmente. Morrer lutando. Entre um passo e outro. Indo atrasado para uma festa animadíssima.

E como chegar aí? Parece uma atitude de super-herói, homem de ferro. Ou no mínimo, Davi diante de Golias. É fácil. É só se convencer que você é um super herói. A vocação do homem é heróica. A vocação do homem é a honestidade, a coragem, a solidariedade, a bondade. E até mesmo a misericórdia. Simplesmente porque esta é a situação mais confortável, a que menos dói. E se formos espertos, vamos aprendendo uma a uma, as técnicas e artimanhas para chegar lá.

Elas basicamente consistem em tratar bem a si mesmo. Ter consigo mesmo um desvelo, um carinho, um cuidado de mãe. A psicanalista Melaine Klein é que diz que devemos ter dentro de nós um pai e uma mãe, uma mãe que diz “Te amo, meu filho, independente de qualquer coisa que você faça”. E um pai que diz “Te amo, meu filho, mas só se você se comportar bem”. Ame aos outros como a si mesmo, diz o Cristo. E ame a si mesmo tanto quanto for possível.

E viva na ilusão! Somente o louco vive na realidade. A realidade é insuportável. O homem foi feito para sonhar e criar ilusões. Por isso os artistas são, em geral, mais felizes que os outros. Criam mais. Por isso tem tanta gente aqui querendo fazer teatro. Em que grau de ilusão você prefere viver? Essa é a sua única escolha. E a partir daí, tome toda a responsabilidade dos seus atos. Você só faz o que quer. Senão faria outra coisa. Papai e mamãe foram dormir, estão talvez, engendrando outro neném. Você está sozinho e isso não é mau. Nem Deus teve pai e mãe.
Conselhos práticos para ser feliz. Sempre lembrando que o bom conselho é aquele que a gente não tem que seguir.

1. Viver cada dia como se fosse o último. Já fizeram um ótimo filme sobre esse assunto. Um filme de jovens, “A Sociedade dos Poetas Mortos”. Carpe Diem. Sim, porque cada dia pode ser o último. Por exemplo, cada filme que faço pode ser o último. As produtoras podem não querer mais botar dinheiro, eu posso não ter mais vontade de fazer filmes e posso, naturalmente, morrer antes das filmagens. Viver cada dia como se fosse o último é, na verdade, viver bem o quanto se pode. Tirar de todo momento o máximo que tiver para dar. Como eu estou fazendo com este momento aqui. Viver cada dia como se fosse o último não é ficar pensando na morte. É prezar a vida. Saber de todos os prazeres que ela pode dar e aproveitá-los. Avidamente.
2. Respeitar os seus desejos. A máquina de desejar do homem é muito frágil. Enguiça com muita facilidade. Se você me convida para tomar um sorvete e eu digo: “Ah, não quero não.” É capaz de você desistir de tomar o sorvete. E este será um sorvete a menos na sua vida. Porque desejar é viver. O desejo é a fonte de toda saúde, de toda produtividade. Ele tem que ser cuidado, respeitado. O menor desejo de um homem deve ser atendido o mais depressa possível. Se contrariamos muito alguém, por exemplo, obrigando-o a acordar todos os dias às 6 horas da manhã para ir trabalhar naquilo que não gosta, a máquina quebra. Depois de algum tempo, esse homem não deseja mais nada. E não desejando, deseja o mal. Não deixe isso acontecer com você. Todo mundo tem que fazer o que gosta. Todo mundo tem que ganhar dinheiro no final do mês para pagar as suas contas. O Herói Moderno, o sábio, o gênio moderno, é aquele que consegue unir essas duas coisas. Esse deveria ter as suas mãos beijadas nas ruas.
3. Mas seja humilde. Com o grau elevado de auto-estima, porém humilde. Humildade é sinônimo de inteligência. O homem que sabe, sabe que não sabe. Já o burro ignora a sua burrice. Cuidado com os burros.
4. Melhor se arrepender de ter feito do que de não ter feito. Exemplo simples: Garota ao seu lado. Você tem vontade de agarrá-la. O máximo que pode acontecer é ela te dar um tapa, se você agarrá-la. Se não, o mínimo que pode acontecer é você ficar batendo com sua cabeça na parede de arrependimento. Diante da dúvida, não fazer é uma atitude antiga, do século XIX. Chama-se a Cautela. Uma atitude careta, por assim dizer. Uma coisa boa para as crianças. Fazer correndo o risco do arrependimento é, sem dúvida, o melhor negócio. Naturalmente se você não estiver causando o mal a ninguém.

Obs. O filósofo somente é digno quando segue a sua filosofia. Isso significa que não existem filósofos dignos. Ninguém é de ferro. Não pensem por um momento que eu consigo fazer essas coisas que defendo. De vez em quando sim, de vez em quando não. Somos apenas humanos. Sem culpas.

5. Você deve terminar tudo aquilo que começa. Um curso, um namoro, nem de sair do filme no meio eu gosto. Terminar aquilo que começa é o segredo, que ninguém nos ouça, da produtividade e, portanto, da riqueza. Somente terminando aquilo que você começou é que você vê se era uma merda ou uma maravilha. Começar sem acabar é depressão. Até um amor. Você deve ir até o fim. Até a vida.
6. Tudo é sexo. Gente, essa eu não preciso explicar. Sexo é a força da qual emana tudo. Talvez seja o sexo que une os átomos, tornando a matéria coesa. Até hoje acho que quando um homem e uma mulher enfiam-se um dentro do outro, a Terra treme. Os jovens de hoje dão menos importância ao sexo que os da minha geração. Não vamos analisar isso. Mas vamos acabar com isso. Como disse Millôr Fernandes, “trepar é a única coisa que é bom mesmo quando é ruim.” Na bíblia não se fala em trepar. Se diz “conhecer”. Sexo é uma forma de conhecimento absolutamente notável. Somente na cama as pessoas revelam como realmente são, é curiosíssimo, deslumbrante. Muito educativo. O amor é o efeito colateral do sexo. E também a paixão, embora esta tenha uma maior transcendência. Sexo. Esqueça a pornografia. É um mito da sociedade de consumo. O mito de que é possível trepar indiferentemente. Se existe algo na vida que desperta sentimentos modificadores, isto é o sexo. Muito educativo. Se esta palestra fosse uma suruba, sairemos daqui tendo aprendido muito mais. Sobre Deus, sobre a vida, sobre os homens.
7. Liberdade. Essa é um caso sério. Não há nada que um homem deseje mais e não há nada de que ele tenha mais medo. É ótimo poder botar sobre os outros ou sobre a sociedade seus fracassos e dores. É ótimo dizer “eu fiz aquilo obrigado” ou “eu não fiz aquilo porque não deixaram”. É ótimo, porém falso. Um homem é responsável por todos os seus atos. Bons ou maus. Se eu não quisesse estar aqui, estaria em outro lugar. Ainda mais no dia do meu aniversário. Quando você assume a responsabilidade de todos os seus atos, acredita, como Sartre, que a liberdade do homem é total e infinita. Você ganha também a possibilidade de resolver com você mesmo os seus problemas. Ninguém nunca te obrigou a nada. Foi você que quis, o tempo inteiro. A responsabilidade é sua. Quer você queira, quer não. Não importa o que o passado fez de mim. Importa o que eu farei com que o passado fez de mim. Uma das frases que eu mais gosto é de Píndaro, o Grego. “Oh, minha alma! Não aspira a vida imortal, porém esgota o campo do possível.”
8. Os jovens em geral sentem muita culpa. Culpa de tudo. Até de ter nascido. Acontece alguma coisa errada, deve ter sido ele que fez. Lute contra isso. Seja inocente. Você é inocente. Ninguém pode te culpar de nada. Nem de ser vagabundo, nem de ser galinha, egoísta ou mal comportado. Você é inocente. Inocente por ausência de uma intenção culposa. Se você é um homem reto e bom, se não quer destruir nada e a ninguém, você é inocente. Mesmo que a despeito à sua vontade algo seja destruído ou morto. Nunca admita que a culpa é sua, se você não teve a intenção culposa. Retirar a culpa dos outros é uma atitude de tirano, covarde. É um desaforo. Não admita.
9. Mas é bobagem, tudo isso. Vocês têm muitas coisas a aprender, para viver melhor, e cada um aprenderá ao seu modo. A morte não é mais que um estímulo criativo. Quando ela chegar, você nem saberá, porque estará morto. O importante é amar a vida. Ter a noção profunda de sua extrema felicidade ou a extrema noção da sua profunda felicidade. A vida não tem limites nem regras. É uma contínua luta. E você está vivo. Talvez até um dia mais próximo do que você pensa, você faça 72 anos. O mundo é uma beleza. Se eu não tivesse o mundo dentro de mim, eu ficaria cego quando abrisse os olhos. E o teatro é uma beleza. É beber o vinho de uma existência inteira na taça frágil de uma hora. Um beijo na boca de cada um de vocês. E obrigado pela atenção.


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Tenho algumas coisas nas quais acredito. Algumas normas, princípios ou mandamentos. Que me governam. São 12. Moisés só tinha 10.
A partir da próxima postagem, lanço sobre a mesa 1 a 1.


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LEGADO SEXTO

Temas Policiais para pensar antes de dormir... São raríssimas as peças policiais.

...personagem interessante: a velha que vai deixar uma herança mas não morre nunca...

...o encontro do assassino... com o suicida. Assim a vítima é mais perigosa que o agressor.

...o detetive cego: as vantagens de ter um sentido a menos...

...o crime dentro da burocracia da grande empresa. Há um lá disposto a tudo para galgar os degraus. Mas será que existe outro?...

...um moribundo como detetive. ele tem direito a tudo e resolver o crime é seu último prazer...

8 comentários:

polaroidesliterarias disse...

Domingos, obrigado por compartilhar a tua "carta a um jovem ator". Muito boa, privilégio. Adicione o tal experimento com ratos que você menciona mas que não incluiu, fiquei curioso.

Engraçado como muito da carta parece ter saído de "Todas as mulheres...", "Amores", "Separações"... etc. Muito bom.

Abração do

Bayão

Tais disse...

Amei esse tema: o encontro do assassino... com o suicida. Assim a vítima é mais perigosa que o agressor.

esboçarei minha ideia . gostaria de ter um email no qual eu pudesse enviar textos, esse espaço do comentario é pequeno. aguardo o email, e comentarei sempre ! Amo escrever , e ler, afinal, as letras , apesar de nos revelar a realidade, nos permitem brincar com ela, incutindo sonhos bons ou maus, ideias loucas ou não, em meio à atitudes militarizadas pela falsa couraça da moral alheia.

polaroidesliterarias disse...

Pra constar: continuo trabalhando no nosso "Desencontros". Encontrei uma boa solução para o primeiro encontro do trio, está ficando muito bom.

abs

Dani Barbosa disse...

Muito obrigada pela carta... tenho o orgulho de pensar que ela também é dedicada à mim, visto que sou uma jovem atriz!...

Ficaria feliz se você visitasse meu blog também, até porque suas obras me impulsionaram muito a escrever!

dudv disse...

Bela carta.

infinitoLui disse...

Processe, Domingos.
Process.
Progress.
Ou só pró-mess, mesmo?

Continue!

Fernanda Sanches disse...

nossa!
como foi forte ler esses seus conselhos!
obrigada!

Mabeando número 8 disse...

Gostaria de saber o e-mail do Domingos !! como faço ?