quinta-feira, 18 de setembro de 2008

LEGADO QUARTO

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Sempre tive vontade de escrever um filme que começa com passos de uma mulher na rua, decididos e apressados, que fundem para outros passos, da mesma mulher na mesma rua, 10 anos depois. O ruído dos saltos... daí em diante, se desenvolvem duas estórias paralelas. Do dia em que ela, personagem, deixou a casa dos pais pela primeira vez para ir morar sozinha e do dia em que ela abandonou o primeiro marido e grande amor. É só isso.


E basta.






AUTO-AJUDA:

(aqui vai o texto que termina minha peça e meu filme "Separações". Ele me veio inteiro, quase que ditado, num acordar, durante o final dos ensaios da peça. O escritor às vezes tem esses rompantes, chamando de inspiração. Então quis colocar o texto no final da peça. E depois, no filme. Mas achei que os atoes não iam gostar. Iam afinal, ficar inseguros com tantas palavras no final. Não é costume terminar peças ou filmes com discursos filosóficos. Então resolvi mentir. E dizer que aquele era um texto Caldaico que eu tinha descoberto em certo National Geographic. Um texto achado numa escavação arqueológica requintadíssima. Que eu tinha apenas traduzido. Achei que assim os atores poderiam me levar a sério. Menti. Deu certo. E mantive essa mentira até o final da montagem do filme. Isto é, por mais de dois anos. Acho que só a Priscilla sabia. O santo de casa não faz milagre, sábios de casa, então... não têm chance. O respeitado filósofo já morreu no mínimo há 50 anos.)



O HOMEM LÚCIDO


O homem lúcido sabe que a vida é uma carga tamanha de acontecimentos e emoções que nunca se entusiasma com ela, assim como não teme a Morte. O homem lúcido sabe que viver e morrer são o mesmo em matéria de Valor, posto que a Vida contém tantos sofrimentos que a sua cessação não pode ser considerada um mal.

O homem lúcido sabe que é o equilibrista na corda bamba da existência. Sabe que, por opção ou acidente, é possível cair no abismo, a qualquer momento, interrompendo a sessão do circo.

Pode também o homem lúcido optar pela Vida. Aí então ele esgotará todas as suas possibilidades, passeará por seu campo aberto e por suas vielas floridas.

Saberá ver a beleza em tudo. Terá amantes, amigos, ideais. Urdirá planos e os realizará.

Resistirá aos infortúnios e até às doenças. E, se atingido por algum desses emissários, saberá suportá-los com coragem e mansidão.

Morrerá o homem lúcido de causas naturais e em idade avançada, cercado por filhos e netos que seguirão sua magnífica aventura.
Pairará então sobre sua memória uma aura de bondade. Dir-sé-á: aquele amou muito e fez bem às pessoas.

A justa lei máxima da natureza obriga que a quantidade da acontecimentos maus na vida de um homem iguale-se sempre à quantidade de acontecimentos favoráveis. O Homem lúcido que optou pela Vida, com o consentimento dos Deuses, tem o poder magno alterar esta lei. Na sua vida, os acontecimentos favoráveis estarão sempre em maioria. Esta é uma cortesia que a Natureza faz com os homens lúcidos.

2 comentários:

polaroidesliterarias disse...

Bravo!

sandra adria_na fasolo disse...

... flanando por aqui...
(vais pensar, mas que atrevida vir aqui beber nos meus textos).
Este em especial está lindo e filosófico, o homem lúcido é tudo de bom. mas ele não tem que ser conformativo com a realidade, não, Domingos? Com o cotidiano?...
eu adorei o texto. abs